No post de hoje, apresentamos a derivação da equação de Hagen-Poiseuille, um célebre resultado de enorme elegância e utilidade prática.
1. Simplificando as equações de Navier-Stokes
As equações de Navier-Stokes e a equação de continuidade descrevem uma variedade de problemas de escoamento. De maneira geral, podemos enunciá-las da seguinte forma:
onde u, v e w são as componentes de velocidade do escoamento nas direções dos eixos x, y e z, respectivamente; t é o tempo; p é a pressão exercida sobre o fluido; é a densidade do fluido; e
é a viscosidade dinâmica do fluido. As equações de Navier-Stokes, (1) a (3), são basicamente aplicações da segunda lei de Newton a um elemento de fluido, ao passo que a equação de continuidade, (4), é uma representação matemática do princípio de conservação de volume. No presente post, estamos interessados em modelar o escoamento em um conduto cilíndrico, e problemas com geometria circular são melhor representados com coordenadas cilíndricas. Sendo assim, podemos reescrever (1) a (4) da seguinte forma:
Nesse caso, u, v e w tornam-se as componentes de velocidade nas direções x (axial), r (radial) e (circunferencial), respectivamente (Figura 1). Supomos que a seção transversal do tubo é circular e constante, não existem forças externas sobre o conduto e o escoamento é completamente desenvolvido.
Figura 1. Conduto cilíndrico.
Primeiramente, as hipóteses de que o conduto é reto, possui seção transversal circular e é livre de forças externas permitem-nos concluir que o escoamento será simétrico sobre o eixo longitudinal, de modo que a componente angular da velocidade de escoamento e todas as derivadas na direção circunferencial resultam em zero:
Munidos desses resultados, podemos simplificar consideravelmente as equações anteriores. De fato, todos os termos da equação de momento para w tornam-se zero, eliminando a equação (7) e simplificando as demais equações para as seguintes expressões:
2. O perfil de velocidades
Considerando, em seguida, que o escoamento é completamente desenvolvido, as derivadas das componentes de velocidade u e v na direção axial devem ser nulas, ou seja:
Sendo assim, a equação de continuidade torna-se:
Utilizando a regra da cadeia:
Para que a igualdade acima seja satisfeita, a derivada parcial de rv deve ser nula; para que uma derivada parcial seja nula, o derivando deve ser constante:
Uma vez que a velocidade v deve ser nula na parede do conduto (r = R, condição antideslizamento), a componente radial da velocidade deve ser igual a zero, isto é:
Concluímos até aqui que w e v são ambas nulas, de modo que a única componente de velocidade remanescente é a componente axial u. Com v = 0, a equação (6) é reduzida a
Isso significa que p é uma função de x e t apenas. Na equação de Navier-Stokes remanescente, (10), os termos que contêm gradientes de velocidade em x são nulos em vista da equação (13) e o termo contendo v é nulo por conta da equação (17); dessa forma, a equação reduz-se a:
Para um escoamento estacionário, a velocidade deve ser constante ao longo do tempo, simplificando a equação e produzindo:
A equação acima descreve o equilíbrio entre dois efeitos que atuam no escoamento: o gradiente de pressão, do lado esquerdo, e a viscosidade do fluido, do lado direito.
Nosso objetivo, em seguida, é resolver a equação (20) e obter uma expressão que descreva o perfil de velocidades na seção transversal do conduto. Primeiramente, o gradiente de pressão entre dois pontos de interesse ao longo da trajetória do conduto é suposto constante e igual a um valor k:
onde L é uma distância que não precisa ser necessariamente igual ao comprimento do conduto (Figura 2). É importante observar que o escoamento deve ter caráter totalmente desenvolvido no ponto tomado como x = 0.
Figura 2. Distância ao longo do conduto cilíndrico.
Substituindo k na equação (20), temos:
ou:
Integrando, vem:
onde C1 é uma constante. Integrando uma segunda vez, vem:
onde C2 é uma constante. Para obter as constantes C1 e C2, empregamos duas condições de contorno, quais sejam: (1) a velocidade no centro do conduto deve ser finita; e (2) a velocidade na parede do conduto deve ser nula (condição antideslizamento); matematicamente:
Para que a condição (1) seja satisfeita, a constante C1 deve ser nula:
Para que a condição (2) seja satisfeita, temos:
Substituindo em (24), obtemos:
Esse importante resultado descreve o perfil de velocidades ao longo da seção transversal do conduto. Observamos que o perfil de velocidades é um paraboloide cujo maior valor, umax, ocorre no eixo central do conduto, r = 0 (Figura 3):
Claramente, a velocidade máxima é diretamente proporcional ao gradiente de pressão e ao raio do conduto, e inversamente proporcional à viscosidade do fluido. Munidos do resultado acima, podemos reescrever o perfil de velocidades (27) de forma mais concisa:
Figura 3. Perfil de velocidades na seção transversal do conduto.
3. A equação de Hagen-Poiseuille
Para determinar a vazão volumétrica no conduto, consideramos um elemento anular infinitesimal entre raios r e r + dr para o qual a velocidade pode ser suposta constante. A vazão infinitesimal no elemento é dada por:
Integrando sobre o conduto, vem:
Substituindo o gradiente de pressão k com (21):
Esse importante resultado foi obtido de modo independente pelo engenheiro prussiano Gotthilf Hagen (1797 – 1884) e pelo médico francês Jean Poiseuille (1797 – 1869). Observamos que a vazão é particularmente sensível a aumentos sobre o raio: um aumento de 10% no raio de um conduto cilíndrico implica o transporte de uma vazão 46% maior.
Outro resultado notável é a velocidade de escoamento média , que pode ser obtida dividindo a vazão Q pela área da seção do conduto:
Isto é, a velocidade de escoamento média é igual a metade da velocidade máxima.
Um último resultado notável, que é particularmente importante para aplicações em biomecânica de fluidos, é o cisalhamento da parede:
Podemos substituir umax usando (28) e obter:
Frequentemente, uma quantidade de interesse é a perda de pressão p, que tem relação direta com a potência necessária para alimentar uma bomba e manter um escoamento. Podemos resolver a equação (33.1) para a perda de pressão
p e obter:
Observe que a viscosidade dinâmica é um fator na equação acima; a equação descreve a perda de pressão
pL observada quando um fluido de viscosidade
flui em um conduto de diâmetro D e comprimento L com velocidade média
.
Na prática, é conveniente exprimir a perda de pressão para qualquer conduto – incluindo seções não-circulares – na forma geral
onde é a densidade do fluido, o produto
/2 é a pressão dinâmica e f é o fator de atrito de Darcy-Weisbach,
Igualando (36) e (37), obtemos uma relação para o fator de atrito referente a um escoamento laminar completamente desenvolvido em um conduto cilíndrico:
Mas, pela definição de número de Reynolds:
Sendo assim:
Esse resultado mostra que, para um escoamento laminar em um conduto cilíndrico, o fator de atrito é unicamente dependente do número de Reynolds.
Exemplo
Glicerina a uma temperatura de 20oC (densidade = 1260 kg/m, viscosidade dinâmica = 1.49 kg/m·s) está sendo bombeada a 3.1 m3/s em um tubo cilíndrico. Desejamos que o escoamento seja laminar e que a queda de pressão seja no máximo 100 Pa/m. Qual é o diâmetro mínimo permissível?
Solução. Resolvendo a equação (32) para a queda de pressão p/L, a qual deve ser não maior do que 100 Pa/m, temos:
Ademais, para que o escoamento seja laminar, o número de Reynolds deve ser menor que 2000. Lembrando que o número de Reynolds para um conduto cilíndrico é (equação (40)):
Podemos substituir a velocidade pela razão entre a vazão Q e a área da seção
D2/4:
A desigualdade 2 é mais estringente. Sendo assim, o conduto deve ter um diâmetro mínimo de 1.67 metros.
Referências
- ÇENGEL, Y.A. e CIMBALA, J.M. (2018). Fluid Mechanics: Fundamentals and Applications. 4ª edição. Nova York: McGraw-Hill.
- WHITE, F.M. (2015). Fluid Mechanics. 8ª edição. Nova York: McGraw-Hill.
- ZAMIR, M. (2016). Hemo-Dynamics. Berlin/Heidelberg: Springer.